BASTA UM TROPEÇÃO E PRONTO
Você
torce o tornozelo. A dor – e isso é quase
inevitável – irá tencionar a batata
da perna até ela ficar dura feito pedra.
O joelho, em seguida, passa a se dobrar ligeiramente,
sem que se note, para poupar a área sofrida
de maiores impactos. Essa atitude inocente faz uma
perna ficar imperceptivelmente mais curta que a outra.
Aí é a vez da bacia de se inclinar,
tentando a disparidade. Só que a coluna não
agüenta acompanha-la, ficando toda torta para
um lado como se fosse uma torre de Pisa. E daí
dá um jeito de compensar a inclinação
alheia fazendo uma curva para o lado oposto. O tornozelo
pode até ficar bom depressa, mas a coluna,
coitadinha, tende a insistir no erro, um desvio conhecido
como lordose, uma das curvas mais comuns de dor nas
costas.
Vários músculos podem se comportar como
se fossem um só.
BONITA POR FORA, DOLORIDA POR DENTRO.
Veja como uma postura incorreta bagunça as
suas costas
1- NERVOS PRESSIONADOS
Uma posição esquisita ou mesmo o nervosismo
do dia a dia podem contrair demais a musculatura.
Ela, então, comprime os nervos, que pedem socorro
ao cérebro – é a dor.
2-
COLUNA DESVIADA
A resposta imediata do corpo é procurar outra
posição. Ledo engano. Na tentativa de
poupar a área contraída, a mudança
pode empurrar as vértebras da coluna. Elas
também comprimem o que está ao redor.
Lá vem mais dor.
3-
SE O ERRO VIRA HÁBITO
As vértebras mal posicionadas facilitam o deslocamento
de amortecedores existentes entre elas – os
discos. Esse escape é a famosa hérnia,
que aperta pra valer nervos bem comprimidos, causando
dor em todo o seu trajeto.
A
idéia de que uma tremenda dor nas costas poderia
ser fruto de uma acidente banal ocorrido tempos atrás
– como uma torção do tornozelo
– já tem legiões de adeptos. Ela,
cá entre nós, nem é tão
nova. Nos anos 1950 a terapeuta corporal francesa
Françoise Mézière já falava
em cadeias musculares – “um conjunto de
músculos com a mesma direção
que se sobrepõem como as telhas de uma casa
e se comportam como se fosse uma estrutura única”,
definia a autora. Assim, a musculatura da perna seria
capaz de afetar a da nuca, lá no alto, deixando
o “telhado” inteiro imaginado pela especialista
a ponto de desabar de dor.
VÁRIAS LINHAS
A
partir desse conceito, surgiram diversos métodos,
como o GDS, que mistura psicoterapia e coordenação
motora, e o da reconstrução corporal.
Mas, no Brasil, nenhum se tornou tão conhecido,
nem de longe, quanto o da Reeducação
Postural Global – RPG, criado em 1980 pelo francês
Philippe Souchard. Hoje há cerca de 6 mil brasileiros
se tratando com esse sistema para se livar da dor
nas costas”, avalia o fisioterapeuta baiano
Oldack Barros, presidente da Sociedade Brasileira
de RPG.
“Há mais pessoas buscando maneiras de
resolver a dor nas costas que não tratem simplesmente
a doença, mas o doente”. De fato, fornos
de bier, coletes e massagens pesadas focam a postura
do corpo como um todo – e essa postura global,
para Philippe Souchard, “está por trás
de 80% dos problemas de coluna”, diz ele, em
entrevista exclusiva à Saúde.
DA
CABEÇA AOS PÉS
No
método criado por ele só existem oito
posições de alongamento. Mas elas já
seriam capazes de fazer as tais cadeias musculares
conviver harmoniosamente ao esticar suas extremidades.
O objetivo é remodelar de braços, pernas
abdômen, tórax e pescoço ao longo
dos 60 minutos de uma sessão semanal. Nela,
diga-se, o paciente se limita a praticar duas ou três
dessas posturas. “Isso porque cada uma delas
é feita durante 20 ou 30 minutos. Mas é
tudo suave”, diz ele. Esse tempo é um
prazo para o cérebro gravar um modelo corporal
novo, apagando os erros tensões do passado.
O tom professoral domina a retórica de Philippe
Souchard. Também pudera. Ele passa a maior
parte do tempo viajando para formar seus discípulos,
que já somam 7 mil fisioterapeutas espalhadas
por 11 países.
E admite que às vezes seu corpo padece: “Não
é na poltrona de um avião que vou conseguir
cuidar dele”, lamenta. Quando está na
França, seu endereço é a pequenina
cidade medieval de Saint Mont.
Ninguém ouse perguntar a sua idade: “Já
passei dos 50”, é tudo o que diz. Mas,
para ele e para seus seguidores na RPG, a juventude
pode ser definida por uma única expressão
– “músculos flexíveis”.
Para a psicologia paulista Ana Maria Hevemeyer, com
formação em cadeias musculares, a dor
nas costas surge “porque nosso corpo foi programado
para movimentar-se”. Sentado por muito tempo,
ele contrai a musculatura nas redondezas da coluna
a fim de compensar a pressão sobre suas vértebras.
“Já os ombros sofrem porque têm
de suportar os mais de 4 quilos de uma cabeça
ligeiramente inclinada para a frente”, explica.
Como não dá para fugir da realidade
– e ela é, muitas vezes, uma cadeira
de escritório - , os defensores da teoria das
cadeias musculares afirmam que mesmo quem vive na
mais correto das posturas pode perder esse trunfo
sem, digamos, cuidados de manutenção.
Em outras palavras, alongamentos.
“No dia-a-dia, nossas costas são como
calças compridas após 20 horas de vôo,
compara Souchard. “Ficam cheia de dobras e precisam
ser esticadas.”
A
POLÊMICA DOS ESPORTES
A
musculação está na linha de fogo
dos fisioterapeutas adeptos da RPG. “Se eu trabalho
um bíceps, esse esforço será
compensado em outro músculo da sua cadeia,
que pode estar nas costas ou no pescoço”,
exemplifica Oldack Barros. Alguns esportes têm
o mesmo efeito: sobrecarregam demais certos músculos
e desprezam outros, por causa dos movimentos repetitivos,
como é o caso do tênis e do golf, que
para piorar ainda exigem torções de
coluna dos praticantes.
Nem o surf escapa, segundo uma pesquisa que acaba
de ser divulgada pela Universidade Federal de São
Paulo. Aquela força nos braços que o
surfista faz para vencer a maré e pegar a melhor
onda deixa os ombros arqueados”, diz a fisioterapeuta
Marília Andrade, autora do trabalho. Ou seja,
aquele ar de menino do Rio pode ser substituído
por um estilo corcunda, candidato a artrose.
Revista Saúde
Outubro 2001