Criador
da técnica conhecida como Reeducação
Postural Global, ou RPG, e autor de 18 livros, Philippe
Emmanuel Souchard é um fisioterapeuta reconhecido
internacionalmente. Passa a maior parte de seu tempo
viajando pelo mundo entre cursos e palestras.
Quinze
anos de pesquisa em biomecânica culminaram na
obra “O Campo Fechado” e, a partir de
então, a fisioterapia nunca mais foi à
mesma. A técnica se sustenta no tripé
unicidade – causalidade – globalidade,
e chegou ao Brasil na década de 80, representando
um grande avanço no campo da fisioterapia,
ortopedia e reabilitação. A RPG consiste
em trabalhar o sistema muscular, sensitivo e esquelético
como um todo, tratando, de forma individualizada,
os músculos que se diferencia na estrutura.
Vista no início com desconfiança, a
técnica foi se firmado e, hoje, conta com mais
de 3 mil profissionais só no Brasil que tratam
as desarmonias do corpo, num trabalhando mútuo
com a classe médica.
No
mês de setembro, Philippe Souchard esteve no
Brasil para o lançamento, em première
mundial, do livro “As Escolioses” seu
tratamento fisaioterapêutico e ortopédico”.
Considerada uma das mais severas alterações
da coluna vertebral, a escoliose agora encontra na
RPG. Milênio esteve no lançamento do
livro e conversou com o Dr. Souchard. Na entrevista,
ele conta um pouco da técnica que criou, fala
de acupuntura e alerta para os falsos “RPGistas”.
ENTREVISTA
Milênio – O senhor é o criador
da RPG. Como surgiu a idéia de uma Reeducação
Postural?
Souchard – Como fisioterapeuta, eu estava insatisfeito,
com a insuficiência dos resultados da fisioterapia
convencional. Percebi q eu havia algumas contradições
nas noções de Reeducação
do sistema músculo-esquelético. Meu
passado de ciência dita exata me levou a aprofundar
minhas observações e a pesquisar nas
áreas de fisiologia e biomecânica, o
que me permitiu estabelecer os princípios e
as bases do que é conhecido como RPG.
Milênio
– A RPG pode causar algum tipo de lesão
muscular por forçar uma correção?
Souchard – Este é um dos pontos que marcam
uma grande diferença entre a RPG e outros métodos:
nunca se força, até porque é
um trabalho ativo da parte do paciente. O tratamento
“pessoal e intransferível”, ou
seja, pode ser adaptado a qualquer pessoa e/ou situação.
Milênio
– Quais os principais fatopres que causam posturas
inadequadas?
Souchard – Posso citar uma infinidade de fatores
ou resumir: a vida moderna e a perda, cada vez maior,
dos hábitos e condições de vida
naturais. As principais queixas de pessoas que vêm
ao consultório são aquelas de toda gente:
“dor nas costas”, dores de cabeça
e pescoço, “hérnias”, “dor
ciática”... Além das escolioses
e outros problemas morfológicos.
Milênio
– Como saber que uma dor é resultado
de má postura?
Souchard – A postura incorreta, infelizmente,
não dá Sinais. Mesmo olhando-se no espelho,
as pessoas não percebem que estão “tortas”.
Apenas quando surge a dor é que se percebe
que algo vai mal. É por isso que não
se deve “fazer calar” uma dor sem investigar
a sua causa, pois a dor é o sinal de alarme
do corpo para mostrar que há alguma coisa “fora
do eixo”. Grande parte das dores é resultado
de má postura.
Milênio
– Como é realizado o diagnóstico?
Souchard – Numa primeira sessão é
feita uma avaliação muito minuciosa,
que consta de vários itens e testes. É
desta avaliação que saem o diagnóstico
e a escolha das “posturas” a serem empregadas
naquela sessão de tratamento. A cada sessão,
é feita uma nova avaliação, mais
simplificada, porém igualmente importante para
o acompanhamento do tratamento.
Milênio
– Quantas sessões semanais são
recomendadas?
Souchard – Para iniciar o tratamento, recomendamos
no mínimo uma sessão semanal; depois
que o problema é controlado, pode acontecer
de espaçarmos as sessões, até
a suspensão total, que seria a alta.
Milênio
– Como é feito o tratamento? Quantas
sessões são necessárias ao todo?
Souchard – O tratamento é feito em consultas
de 1 hora ou mais, em geral uma vez por semana, podendo
ser necessário, em alguns casos, acelerar para
duas vezes por semana (nas escolioses graves, dores
em situações agudas, pessoas frágeis,
enfim, adaptações). Dependendo do problema,
pode ser necessária apenas uma sessão
(no caso de uma lesão recente) ou muitas (numa
escoliose infantil, que terá que ser “vigiada
de perto” e acompanhada durante todo o crescimento).
A duração do tratamento também
varia muito, pois depende do que há a corrigir.
Mas logo na primeira consulta, quando se faz a primeira
avaliação, pode-se ter uma primeira
previsão do tempo que será necessário.
Milênio
– O que acontece quando um problema de postura
não é tratado?
Souchard – Infelizmente, os problemas posturais
são a preliminar para os problemas articulares.
Se você mantém uma postura incorreta
durante alguns anos, pode não sofrer enquanto
é jovem, mas certamente vai sofrer um dia,
já em médio prazo, pois não se
pode fazer repetidamente movimentos desviados por
causa de retrações, sem chegar a um
bloqueio das articulações implicadas.
Milênio
- Os efeitos do tartamento são duradouros,
ou a pessoa pode voltar a apresentar o problema?
Souchard – Se pudermos identificar e eliminar
as causas do problema, os efeitos serão definitivos.
É evidente que, se as causas estão no
modo de vida das pessoas, não poderemos, na
maioria das vezes, elimina-las e nem mesmo muda-las,
pois pode se tratar de um ofício ou de uma
paixão (um esporte, um hobby). Mesmo assim,
um bom trabalho em RPG pode ter um efeito bastante
durável, pois será integrado nos automatismos
do corpo. De qualquer forma, não costumamos
proibir nenhuma atividade aos nossos clientes, pois
partimos do princípio de que, se o tratamento
é bom, deve permitir até mesmo algumas
imprudências, que são inevitáveis
na vida cotidiana. Aconselhamos apenas um contato
com o fisioterapeuta, a título de prevenção,
e, eventualmente fazer uma consulta, caso haja algum
sinal de alerta. Umas poucas sessões bastarão
para a volta à calma.
Milênio
- Quem encaminha a pessoa a um profissional de RPG?
Souchard – Muitos médicos, em todos os
países onde a RPG está presente, enviam-nos
pessoas para tratamento. Outros vêm por indicação
de amigos que já fizeram o tratamento. E outros
ainda, porque já tentaram de tudo, sem obter
melhoras significativas. E porque ouviram falar do
método.
Milênio
– O que o Senhor aconselha às pessoas
para evitar o surgimento das lesões?
Souchard – As atividades, laborativas ou de
vida diária, repetitiva, são sempre
causadoras de “irritações”,
que tomam nomes variados de acordo com o momento ou
a moda: agora, as tendinites que sempre existiram
se chamam “LER” ou “DORT”
ou outras siglas. Meu conselho, já que não
se pode evitar digitar durante horas num teclado ou
ficar sentado a maior parte do dia, trabalhando ou
dirigindo ou ainda estudando, é tentar variar
as atividades o máximo possível, levantar-se
e andar de vez em quando, abrir as mãos e esticar
os braços algumas vezes e, a qualquer sinal
de alarme, procurar o tratamento adequado; no caso,
músculo-esquelético (por que não
RPG?).
Milênio
– A RPG pode ser aplicada a mulheres grávidas?
Souchard – Não há inconvenientes
em aplicar as técnicas de RPG em mulheres grávidas
quando há a necessidade de tratamento. Nesse
caso, a futura mamãe receberá uma atenção
individual e adaptada à sua condição,
o que não ocorre, necessariamente, em outros
casos tipos de tratamento. Realizamos todo um trabalho
de preparação para o parto e recuperação
pós-parto, que se baseia nos princípios
biomecânicos da RPG, uma técnica bastante
original, reconhecida por muitos médicos, obstetra
e, melhor ainda, aprovado pelas mulheres que experimentaram.
Milênio
– A RPG é indicada para crianças
com problemas posturais, uma vez que estão
em fase de crescimento?
Souchard – Crianças em crescimento, que
apresentam problemas músculo-esquelético
ou posturais, podem e devem ser acompanhadas em RPG,
para correções e para evitar fixações
de posturas incorretas, ou seja, para prevenir o surgimento
de futuras articulações.
Milênio
– Há uma idade recomendada?
Souchard – É mais fácil tratar
pessoas com um nível de compreensão
e consciência corporal. Entretanto, como é
um tratamento individual e dedicamos uma hora ao paciente,
podemos nos adaptar a cada idade, cada caso, com resultados
sempre satisfatórios. É preciso ter
segurança nas bases e nos princípios
do método e saber onde se quer chegar.
Milênio
– É possível corrigir todos os
casos de má postura?
Souchard – Sim, corrigimos 100% dos casos, quando
não há uma causa irreversível
ou fora do domínio da fisioterapia.
Milênio
– Há indicação de tratamento
paralelos ou complementares? Por exemplo, esportes
como natação?
Souchard – A natação e outros
esportes não podem ser considerados tratamentos
para os problemas posturais, uma vez que trabalham
indiscriminadamente os músculos da estática
e da dinâmica. São atividades físicas
que contribuem para a higiene de vida e para o bem
estar físico-psíquico-social, o que
é de fato muito importante. Mas na realidade,
são atividades contrárias à RPG,
pois fazem os músculos da estática trabalharem
em contrações concêntricas, ou
seja, em encurtamento.
Milênio
– A acupuntura também trata problemas
de coluna. RPG e Acupuntura são excludentes,
ou podem ser utilizadas paralelamente?
Souchard – A Acupuntura é da mesma família
da RPG: baseia-se na unicidade, globalidade e causalidade.
Assim, não são métodos incompatíveis.
Mas é preciso ressaltar que, para corrigir
mecânicos, é preciso um método
mecânico. A acupuntura trabalha no terreno da
energia e pode aliviar a dor da coluna através
de um reequilíbrio das manifestações,
mas não pode chegar à correção
concreta de uma lesão, que é uma mudança
do eixo articular e requer uma correção
mecânica local.
Milênio
– A técnica de Reeducação
Postural pode trazer benefícios a deficientes
físicos?Por exemplo, fortalecer a musculatura
de paraplégicos?
Souchard – “Fortalecer musculatura”
é um dos conceitos revistos pela RPG. O que
nós fazemos é desenvolver aos músculos
o seu comprimento e a sua flexibilidade otimal, o
que lhes garante a máxima capacidade de contração,
ou seja, maior força ativa e melhor funcionalidade.
Assim, no caso específico de paraplégicos,
os músculos que não foram afetados pela
paralisia terão o melhor desempenho possível.
Infelizmente, porém em situações
dessa natureza, nós não podemos eliminar
a causa do problema e será preciso retornar,
de vez em quando, algumas sessões de RPG para
corrigir com a repetição dos gestos
de compensação que suprem a falta dos
movimentos que foram perdidos.
Milênio – Qual formação
deve ter um profissional de RPG?
Souchard – Para fazer o curso de RPG, é
necessário ser fisioterapeuta já formado.
O curso básico de RPG tem a duração
de quatro semanas, com 240 horas aula. Completando
o curso básico, o profissional da área
pode continuar a sua formação em RPG
seguindo a evolução do método
através de reciclagens gratuitas nos cursos
básicos e fazendo os cursos avançados,
que visam aprofundar os conhecimentos e o modo de
tratar em patologias específicas como a escoliose,
que é o tema do meu novo livro, e patologias
articulares, cursos de interpretação
de exames radiológicos, preparação
para o parto, entre outros. Para formar um bom profissional,
são necessários alguns anos de prática
purista, e aí está a maior dificuldade:
alguns começam a praticar, mas, diante de um
caso mais complicado, não aceitam o desafio
de procurar suas deficiências e “fogem”
do problema, buscando soluções mais
fáceis em outras técnicas e misturando-as
à RPG. É o fim. Acabam abandonando ou
“criando novas técnicas”, que chamam
de RPG/qualquer coisas.; Os resultados são
proporcionais.
Milênio
– Há indicação de algum
preparo antes das sessões?
Souchard – Sim, sem dúvida. É
exigido um enorme preparo... Mas do “fisioterapeuta”!
Nem todos conseguem chegar à completa compreensão
do método e, conseqüentemente, à
sua melhor aplicação. É também
um investimento muito pesado em termos de mudança
de hábitos e resistência às pressões
do sistema convencional. A RPG é um método
muito complexo. O corpo humano é um sistema
maravilhoso, mas de uma enorme complexidade. Não
se pode imaginar uma sofisticada máquina com
uma simples chave de fenda e um martelo. Só
um método pode responder ao caráter
complexo da patologia. É por isso que não
são todos os que se dizem “RPGistas”
que farão um trabalho correto.
O efeito da “moda” fez com que surgissem
vários cursos auto-intitulados RPG–isso–ou-aquilo
(pois RPG chama a atenção do público
hoje em dia) e que não têm nada a ver
com o curso original. São apenas cópias
mal feitas que, sem a essência da base, acabam
misturando diversas técnicas prometendo ser
mais “completos”. No final das contas,
não são realmente nada. Por isso recomendamos
sempre que as pessoas tenham cuidado ao procurar um
tratamento em RPG. É preciso se informar junto
à Sociedade Brasileira de RPG, que tem a relação
completa dos profissionais formados por mim e por
minha verdadeira equipe.
Revista Milênio
Outubro/2001